Pátria Mundo

2000

Catálogo da exposição Pátria Mundo, sob a direcção de Madalena Braz Teixeira, directora do Museu Nacional do Traje, 2000

Realizou uma itinerância em Museus do norte ao sul do país entre 2000/2005 e 2012

 Tapeçarias de Maria Altina Martins

Museu Nacional do Traje, 2000

                              Curadoria e texto de Madalena Braz Teixeira 

Maria Altina prepara há sete anos o projecto que se apresenta, o qual teve como objectivo realizar uma série de tapeçarias em redor de um tema, Pátria Mundo, com o desejo de criar, ou melhor, recriar uma tenture. A tenture é a designação usada na Manufacture des Gobelins, Aubusson e Beauvais, para nomear um conjunto de tapeçarias de carácter narrativo. Estas narrativas incluíam temáticas sagradas relativas a histórias bíblicas, episódios das mitologias clássicas ou lendas de carácter religioso ou profano. Estas séries, normalmente provenientes de encomendas reais, aristocráticas ou eclesiais, destinavam-se à decoração de castelos, paços, palácios, igrejas ou mosteiros, servindo para revestir e adornar as paredes destas nuas e frias mansões. 

Maria Altina Martins preocupou-se em conceber e estruturar uma tenture ou armação com idêntica intenção à das tapeçarias de antanho mas numa expressão contemporânea. Pátria Mundo constitui assim um políptico de 23 tapeçarias organizado segundo um esquema que obedece, por um lado, a uma simbólica interpretação da epopeia dos Descobrimentos e, por outro, à realização de qualquer conquista pessoal de carácter ascensional com uma finalidade estético-espiritual.

 As tapeçarias são executadas em diversificadas técnicas e dimensões numa tentativa de, integrando a memória e a modernidade, tecer composições cuja textura, ritmo, cor e forma, traduza os conceitos e as ideias que Maria Altina Martins deseja transmitir. A armação imaginada pela artista não se rege, portanto, pelos cânones clássicos, constituindo uma interpretação livre. O conjunto corresponde à consagrada vocação parietal das tapeçarias, mas não se resume nem se circunscreve à função ornamental e mural. Algumas das obras, mantendo todavia o carácter planificado, foram concebidas para definir espaços e marcar perspectivas, conduzindo o olhar do espectador para o entendimento do significado de cada um dos sub -temas. Outras há cuja intencionalidade se exprime através da tridimensionalidade, ocupando o centro de um espaço, invertendo assim o carácter periférico das tapeçarias tradicionais. Outras há, ainda, que se dispõem longitudinalmente, organizando-se de forma sequencial. As tapeçarias desta armação evocam um caminho ou um percurso iniciático que umas vezes assenta na figuração e outras na abstracção. 

tenture compreende uma ordenação que prefigura uma epopeia em que se assinala o ponto de partida e o ponto de chegada e que é constituída por tapeçarias que evocam os passos e os encontros e desencontros de uma epopeia. As referências literárias desta armação ligam-se a Os Lusíadas de Camões, à Mensagem de Fernando Pessoa e a Pátria Minha de António Barahona. Isto não significa que este conjunto de tapeçarias não contenha implicitamente alusões à presença feminina nos acontecimentos relativos à história da expansão, do mesmo modo que evoca simbólica e liricamente a mulher, na figuração de Dinamene como momento exaltante de paixão e tragédia. Como foi referido inicialmente não se pode aqui negligenciar o percurso interior da própria artista, as suas aspirações, os sofrimentos e a experiência pessoal.

Relativamente à manufactura há a detectar que as teias são quase sempre executadas em algodão e que a trama foi sendo tecido nos mais diversos materiais sugeridos pelos próprios sub-temas e pela interpretação descritiva e simbólica dos mesmos. Deste modo, Maria Altina integra nas tapeçarias insólitas presenças de pendor surrealista de raiz duchampiana como socas, tamancas, patins ou pegas de pá, mas também elementos naturais como pedras, crinas e cabelos, bem como fibras naturais como a lã, a seda, e o linho, fiado manualmente, e ainda metais nobres, como a prata e o ouro, acrescidos de diversas pedras semi-preciosas. 

No tocante à técnica utilizada, Maria Altina Martins deu preferência ao ponto básico da tecelagem, o tafetá, conduzindo o cruzamento binário dos fios para os diversificados efeitos com os quais este ponto é explorado na Manufactura de Gobelins. A esta execução não é alheia o facto desta artista ter realizado um estágio de quatro meses nesta célebre e secular Manufactura. Todavia, a sua interpretação é visualmente livre pois também veicula o carácter experimental inerente à tapeçaria contemporânea. 

As cores dominantes desta tenture são o azul dos oceanos, o vermelho do fogo, o castanho da terra e o branco das velas. Esta tetralogia mantém ainda uma relação umbilical com as raízes medievais da tapeçaria, nomeadamente a tenture de La Dame à la Licorne que foi concebida e executada com as três primárias: o vermelho magenta, o amarelo e o azul cião. Não se tratou pois de repetir o esquema clássico mas de desenvolver uma paleta própria numa trilogia de cores, acrescida do valor branco, de forma a criar harmonias tonais onde a discrepância cromática pudesse ser introduzida sem retirar rigor à policromia que Maria Altina Martins estabeleceu desde o início deste projecto. Existem no âmbito desta tetralogia cromática gamas de tonalidades e escalas de valores policromos consonantes e dissonantes que se organizam para transmitir as emoções, os desejos e os anseios da artista. 

O plano da obra segue uma sequência de posturas que correspondem a fases de um projecto de vida que contêm uma unidade perspectivada num cometimento sócio-cultural em que se podem detectar claras alusões aos poetas atrás referidos, a factos históricos, a mitos da cultura portuguesa e a ideias-símbolos de uma dramaturgia pessoal, razões porque o plano da obra está estruturado em 7 partes. 

A primeira integra os elementos naturais, Ar e Água e o modo como foi escolhida a partida, à Vela. Seguidamente expõe a decisão de partir com a Ida e o obstáculo ocorrido no percurso da viagem, o Adamastor

A segunda parte é dominada pelo encontro amoroso, a Dinamene, tendo como complemento o seu trágico final, as Chagas

A terceira parte inclui a realidade social no Povo e a realidade histórico-cultural dos Séculos, a que se segue a confessional contemporaneidade, na tapeçaria designada como Cor-Tina que integra a palavra Cor e Tina (abreviatura de Altina). 

A quinta parte inclui a travessia, Viajor e as idades do homem, Tempo, através de três composições que versam a exploração da infância, da adolescência e da maturidade. A sexta parte é dedicada aos navegadores, a Rosa dos Ventos e o Símbolo e Mito e à alegoria ao exótico, a Causa e Meio, mas também à descoberta da riqueza, Pau-Brasil, à arte de marear, Bússola, ao desejo de aventura, Olho de Tigre, e à expansão territorial, Horizonte. Finalmente, a Pulseira constitui uma amálgama de desejos de elos e de círculos culturais, a que se segue a Cota de Malha, referente à conquista e à luta. 

A sétima parte evoca a grande aspiração e a grande incógnita, Infinito que, para Maria Altina, inclui a grande meta a atingir, o não-fim dos fins

Vela. A manufactura revela-se intrincada e resolve-se numa técnica mista de pendor tradicional e experimental. Assenta na horizontalidade e procura representar a actual bandeira portuguesa que constitui um dos símbolos da nossa cultura. A expansão do rectângulo vermelho e verde atinge significados de luta, de derramamento de sangue, conjuntamente com a ideia promissora da esperança. Integra uma folha de ouro que também se pode interpretar como uns lábios por onde se expressa a língua portuguesa. Esta peça contém ainda uma referência aos oceanos como elementos fundamentais da travessia, aos ventos e à vela como propulsores da mesma. A técnica utilizada reside na execução dos efeitos designados por demi-duites e hachures que correspondem aos mais antigos processos texturais relativos à escola de Gobelins. 

Ida. É evocada não só a imagem tradicional do impulsionador das Descobertas como as suas próprias iniciais I(nfante)D(om)A(nrique). Esta figura domina o centro da composição onde se destaca o grande chapeirão borgonhês. A face apresenta-se límpida, indicando a força do pensamento complementada pela acção da mão. Esta pode ter ainda como significado indicar os ferimentos e as marcas dos sofrimentos no trabalho da realização. Por sua vez, a mão que se expõe tão dramaticamente pode ser interpretada como a mão do infiel onde se adivinham caracteres árabes ou a Mão de Fátima que evoca a presença impeditiva ao avanço dos navegadores. Os restantes elementos de carácter dramático afloram o naufrágio de Camões, o salvamento de Os Lusíadas e toda uma gama de padecimentos que são definidos nos cinzentos e castanhos de evocação africana que se sobrepõem à cabeça do Infante como uma cortina de obstáculos e de dificuldades. 

Ar. Esta composição desenvolve-se a partir de dois elementos marinhos: uma vieira e uma concha fossilizada. O envolvimento destas peças é realizado de tal modo que sugere a expansão textural das mesmas, utilizando a artista tonalidades idênticas às que se encontram na própria vieira e ma concha. Divide-se esta tapeçaria em dois segmentos: um, orientado para a esquerda de expressão nacarada, calma e poética, e outro, orientado para a direita, tecido com tonalidades mais próximas dos valores terra. Estes dois segmentos integram um fundo aquático que os une e que lhes serve de suporte. Esta representação do ar revela quanto estes elementos é fundamental à vida e se situa entre a terra e a água. 

Água. De expressão abstracta, esta tapeçaria é composta por uma moldura tecida e um espaço, em branco, que representa a vela. Trata-se por isso de uma peça que estabelece novamente e com outra forma e dimensão, a relação constante e permanente entre a água e a vela. Esta é, na verdade, o motor do movimento na medida em que, impulsionada pelo vento, conduz o navegador ao seu caminho. O espaço branco poderá também ser interpretado como um período de paz, de pausa e de tranquilidade distendida nos calmos oceanos tropicais ou a noção de vazio, plena de significado quando, a meio de qualquer projecto, se vivem momento de desânimo e de desalento.

Adamastor. Esta tapeçaria é igualmente dividida verticalmente por duas figuras que personificam o gigante do Cabo. Também pode figurar Jeová, o senhor do castigo, e Deus, o senhor do Amor. Enquanto o primeiro reflecte o temor e a tirania, o segundo exprime-se, embora fortemente fustigado pelo vento, através da bonança. Uma das características desta composição reside na dicotomia, no acentuado sentido rítmico e na ideia de movimento tumultuoso. Deverá todavia indicar-se que ambas as cabeças teológicas induzem para a permanência da tradição judaico-cristã, entre as quais se manifestam como muralha de fundo, a tonalidade branca que novamente se refere e evoca a vela dos mareantes. 

Dinamene. De características tridimensionais, esta peça representa essencialmente o fulgor da paixão, a intensidade vermelha do sentimento amoroso, razão porque a figura de Dinamene ocupa toda a composição de alto a baixo como um marco fundamental alusivo à mulher. Recorta-se ainda e como imagem de sofrimento, a presença de um escravo de enormes proporções que centraliza a composição. Marca um outro sinal de tensão e de conflitos, sociais e culturais que são transmitidos pela intensidade das texturas e pela agitação torturante das tonalidades onde domina o negro e os laivos vermelhos alusivos às torturas físicas e morais. A parte esquerda da tapeçaria, de geométrica abstracção, corresponde à representação de uma vela latina. No reverso está contida uma síntese cromática abstratizante da composição contida no anverso. 

Chagas. De carácter figurativo, corresponde à representação da bandeira portuguesa que servia à Dinastia de Avis. Reconhecem-se as cinco quinas tecidas em tonalidades azuis onde se incluem as cinco chagas de Cristo. Esta bandeira compõe um quadrado emoldurado por elementos decorativos que sugerem a hierarquia e a dominância Real na sua forma mais plácida e luxuosa, evocadora de sedas asiáticas, de materiais africanos e de plásticos contemporâneos que veiculam a permanência dos valores pátrios e simbólicos e de uma autoridade política que lidera e conduz uma cultura e um povo. 

Povo. Executada nas cores terra, indica a intenção de representar as populações e a sua ancestral e fundamental relação com a natureza. Tratando-se de uma composição abstratizante pode todavia adivinhar-se a presença de um enorme e bem desenhado olho que tudo vê, perscruta e observa. Esta ideia está representada como se fora o olhar da vela, subjectivando-se assim o têxtil fundamental, na acção epopeica dos Descobrimentos. Este olhar personifica também a atenção de cada mareante da vida que, perscrutando horizonte, assim organiza o seu destino e o seu próprio caminho. 

Séculos. Esta tapeçaria é evocadora da miscigenação, das confluências étnicas e da individualidade de cada etnia e cultura. Traduz a aproximação e o encontro das civilizações, nas raças e dos povos. Esta composição quadriculada, embora tenha um carácter estético, apresenta ritmos preciosos e subtis que, de alguma forma, revelam o valor das relações interculturais e a própria globalização. Esta intencionalidade traduz-se no entrelaçamento dos cromatismos que se podem produzir de forma pacífica e harmoniosa. A tranquilidade que emana desta tapeçaria evoca o sentimento de paz e de fraternidade. 

Cor-Tina. Executada na vertical esta tapeçaria constitui um elemento de transição entre a terceira e a quarta parte da armação. Está conotada com o conceito de biombo, elemento do mobiliário japonês, introduzido na nossa cultura após a chegada dos portugueses a Nagazaki. Se a função do biombo era separar, decorar e tornar mais íntimo o espaço privado, esta tapeçaria propõe como leitura uma certa transparência que indica ao espectador que, para além do espaço vedado, se encontram outros horizontes e a promessa de novas viagens. Por outro lado, a designação Cor acrescida de Tina representa a própria autora que, através do seu tecer, observa e descortina a história epopeica e a sua experiência de vida. 

Viajor. Esta tapeçaria, organizada longitudinalmente, procura explicitar as variadas viagens iniciáticas, históricas e interiores que cada indivíduo, homem, mulher ou criança estabelece consigo próprio, com os outros e com a sua fantasia. Deste modo, a composição apresenta-se numa grande liberdade formal, sendo executada com diversos materiais. É composta por quatorze objectos-têxteis que evocam a ideia de aventura e de multiculturalismo relativo às vivências Oriente/Ocidente e Norte/Sul. A subdivisão por partes aparece como algo de aleatório pois os percursos históricos e vitais podem ser vários e compostos por diversas fases. Assim, este conjunto de peças sugere como proposta as sucessivas e diversificadas etapas inerentes a todos e a cada uma das tipologias de viagem.

Tempo. Trata-se de uma trilogia de peças que procura representar as idades do homem: infância, adolescência e maturidade. A primeira apresenta como elemento fundamental a integração de uns patins que simbolizam a essencial actividade lúdica dos primeiros anos de vida e a ideia de intenso e veloz movimento. A segunda foi traduzida na fragilidade das transparências conseguidas através do entrelaçar de redes coloridas e da integração de acessórios para ao pés que evocam a ideia de caminhos em que são necessários diferentes tipos der calçado para diversas opções e decisões. A terceira peça tem como ponto de referência uma pedra que significa, por um lado, a plena consciência de que é preciso atingir uma constituição densa e resistente e, por outro, a flutuação das múltiplas influências a que o adulto está sujeito.

Rosa dos Ventos. Executada em gaze tingida manualmente, esta peça tem características singulares no conjunto da armação pelo facto da sua decoração ser proveniente de um processo de estampagem e não de tecelagem. Esta ornamentação foi realizada com a técnica de ataduras de fios designada por tie-dye, o que corresponde a um dos mais arcaicos métodos de tintagem manual. A Rosa dos Ventos representa uma vez mais o lado feminino da viagem e da vida. Simultaneamente, veicula o sentido da orientação múltipla que é traduzida plasticamente nos motivos padronizados da composição. Deste modo, detectam-se pequenos losangos que vibram no suporte, em branco, que resulta, aliás, da gaze que foi atada e que não absorveu intencionalmente o encarnado, evocativo da cor sanguínea das rosas.

Símbolo e Mito. Esta pequena peça é executada em material nobre condizente com a natureza dos elementos simbólicos e dos mitos como constantes culturais de qualquer homem, lugar e povo. Esta composição evoca o achamento do ouro, a busca permanente de tesouros materiais e espirituais inerentes à própria condição humana. Revela esta tapeçaria, não uma intenção materialista e exploradora da euforia da riqueza, mas antes a concepção de que o ouro e a prata representam a força da alma de um povo que, sem capacidades económicas e sem matérias-primas essenciais, está praticamente condenado à pobreza, à autodestruição, ao caos e, consequentemente, à guerra. 

Causa e Meio. Procura-se representar nesta tapeçaria a causa e a motivação das Descoberta que claramente tiveram objectivos de carácter comercial e outros de índole religiosa. Deste modo, atende-se à busca de materiais exóticos e de riquezas minerais capazes de engrandecer o património e de devolver aos seus achadores os modos e as armas necessários ao desenvolvimento económico, expressos através dos ornatos e das decorações que sempre veiculam o excesso e o requinte da arte e da cultura. Trata-se também de uma busca da herança cultural relativa às memórias do passado e ainda da procura do próprio património interior. 

Pau-Brasil. Esta tapeçaria bordada integra um fragmento de madeira brasileira que procura ser evocadora do Achamento do Brasil e comemorativa dos 500 anos da viagem de Pedro Álvares Cabral, Trata-se de um objecto têxtil miniatural que contrasta pela dimensão e pela simplicidade com a extensão territorial daquele país, localizado no hemisfério Sul, que congrega hoje em dia uma vastíssima população miscigenada, que se caracteriza pela espontaneidade e pela identidade cultural relativa ao uso da língua portuguesa. 

Bússola. De reduzidas dimensões, esta peça tem como finalidade demonstrar o processo de tecer. Deste modo, a intenção desta composição, de carácter eminentemente vertical, reside no facto de estar propositadamente inacabada, dando a possibilidade ao espectador de poder observar uma parte da tapeçaria já pronta, outra com os fios da teia à vista, integrando também os utensílios que serviram para a execução deste exercício que reflecte técnica de Gobelins. Parece ter também a ideia de que cada indivíduo tem sempre possibilidades de vir a atingir novos objectivos e descobrir em si motivações para concretizar novos sonhos e novas realizações.

Olho de Tigre. Essencialmente executada em lã, esta tapeçaria é tinta manualmente com pigmentos retirados das madeiras brasileiras, nomeadamente pau-brasil e rucu. Trata-se de explorar de forma ligada à tintagem, a simbologia referente ao tipo de vegetação desconhecida até então e que veio a dar o nome ao maior país da América do Sul, o Brasil. Neste sentido, a coloração obtida por estes pigmentos serviu de base para a execução de um exercício de tecelagem de carácter geométrico e abstratizante onde a artista integrou uma pedra semi-preciosa designada por Olho de Tigre que reflecte, por um lado, a característica raiada da pele daquele felino selvagem e, por outro, o seu próprio olhar e a força vital que conduziram e conduzem a qualquer conquista de carácter material ou espiritual. 

Horizonte. Tendo a característica de ser executada no clássico ponto de Gobelins, esta tapeçaria devolve ao espectador uma experiência de calmaria tropical e da intensidade solar inerente ao clima brasileiro. Esta composição tem como principal característica a luminosidade e a suavidade com que as teias se entrelaçam para realizar um todo de grande harmonia. Também é manufacturada com fios, tintos por processo manual, que revelam a intenção de criar uma peça em que se exaltam o amor e o respeito pela horizontalidade de uma paisagem natural. Claramente se induz a extensão territorial de um Império, e mais simbolicamente, a ideia de uma 5º Império, o do Espírito Santo, dominado pela sabedoria e os valores de uma fraternidade estético-cultural.

Pulseira. Esta tapeçaria de pequenas dimensões é essencialmente manufacturada com as fitas do Senhor do Bonfim, a mais conhecida e reconhecida imagem religiosa da cidade de S. Salvador da Bahia. A devoção dos brasileiros e esta imagem de fé vem sendo divulgada através destas fitas, que tradicionalmente se atam no pulso com três nós, que evocam os três mais importantes desejos que os fiéis pedem ao Senhor do Bonfim para serem atendidos. Deste modo, esta composição assenta essencialmente na ideia de pulseira tecida em cores que remetem também para a bandeira do Brasil, acrescidas do vermelho e do violeta. Na sua simplicidade, este efeito de fitas e nós transpõe o espectador para a existência dos desejos como motivadores de percursos ascensionais. 

Cota de Malha. Executada fundamentalmente com missangas, esta peça revela por isso um precioso e moroso trabalho na sua confecção. A cota de malha evoca o traje militar medieval também formado por pequenos elos de metal que se entrelaçam para formar uma indumentária de protecção nos combates de guerra. Trata-se nesta composição de revitalizar a ideia de defesa e de envolvimento do corpo, através da manufactura de uma composição livre e de grande efeito polícromo. Por outro lado, apelam ao desejo de que as conquistas possam ser atingidas sem as armas, mas através da força do amor e dos sentimentos de tolerância e compreensão.

Infinito. Esta tapeçaria consta essencialmente de um exercício, ou melhor, de um estudo sobre a cor que procura transmitir a ideia de multiculturalidade e de utopia através da organização de uma paleta de tonalidades complementares formada por uma enorme estola. Numa das pontas encontram-se tecidas as harmonias cromáticas das primárias e noutra a harmonia cromática dos valores. Esta tapeçaria tem formal e plasticamente referência à Optical Art e, por outro lado, remete novamente para a ideia de representação de uma vela polícroma, extensa e intensa onde se pode lograr o desejo de eternidade e o mistério dessa mesma eternidade. 

O Museu Nacional do Traje tem o maior gosto em apresentar esta exposição de tapeçaria que integra um conjunto têxtil políptico, narrador de viagens marítimas e interiores. Com intenção épica, crê-se que esta mostra venha a constituir um marco histórico na evolução da tapeçaria experimental no nosso país. 

Madalena Braz Teixeira, Directora do Museu Nacional do Traje

                  

Pátria Mundo, texto de Eduardo Nery

As Tapeçarias de Altina Martins

O que imediatamente se impõe na arte de Altina Martins é a sua capacidade de criar ao nível da tecelagem e da forma. Impressiona-me a riqueza das suas texturas, por vezes contrastando entre si, nomeadamente quando opõe processos de tecelagem contemporânea com métodos de execução tradicionais, como os hachures.


O resultado final é um tecido extremamente vivo, para o qual muito contribui o seu grande domínio da cor. Aliás, na sua obra não é possível falar de tecelagem sem falar de cor, porque a Altina compartimenta  as suas tapeçarias num número muito elevado de pequenas superfícies, nas quais as cores e as texturas se apoiam e se prolongam, ou se contrastam num mosaico muito complexo de degradés e de pontos diferentes, escalonados em transições muito subtis, bruscamente quebradas por elementos que claramente se opõem.


No seu domínio da cor ela usa, por assim dizer, todos os contrastes cromáticos e uma paleta riquíssima de tintos, que ela controla sem cair nos perigos do virtuosismo.

De facto, se é verdade que o elevado número de cores, de materiais e de pontos asseguram à partida uma grande riqueza plástica às suas obras, não é menos verdade que essa mesma riqueza a poderia facilmente cair num virtuosismo perigoso, vazio e diletante, mas tal nunca se verifica, porque a Altina consegue, quase miraculosamente, manter tensões ricas de conteúdos quando muda de linguagem plástica, e no caso extremo quando numa situação próxima da colagem utiliza elementos desconcertantes, como patins, sapatos, pedras, madeiras e outros objectos.


Podemos reagir com maior ou menor empatia à incorporação de tais objectos, mas algumas das suas obras são elas próprias objectos, objectos-têxteis valendo por si próprios, com uma vida íntima, mesmo quando ela os associa em assemblages complexas, que os faz conviver uns e outros em sequências, que se estendem ao longo de uma sala, como acontece na sua notável Tapeçaria Contemporânea

Nesta obra, cada peça funciona como um elemento autónomo, executado com inspiração diferente, mesmo quando têm afinidades entre si. Porém, uma vez estes elementos do mesmo varão metálico, eles completam-se e dialogam entre si, como se tratasse de personagens empenhados numa acção comum, num teatro de marionetas.


Portanto, a Altina consegue manter o equilíbrio ( dinâmico ), várias forças opostas que se degladiam na maioria das suas obras mais experimentais, com uma sabedoria, aonde se mistura o gosto do risco com a paciência e a extrema lentidão do processo de execução.

Este último dá-lhe com certeza o tempo para medir esse mesmo grau de risco, exorcizando-o e equilibrando-o nas tensões internas das suas obras.


Por outro lado, a Altina mexe-se com um à vontade invulgar entre a grande dimensão e o valor escultórico dalgumas obras, passando depois ao pequeno objecto-têxtil, que no caso limite se poderia encontrar numa exposição de joalharia contemporânea. Se não fosse o tempo incrível que ela demora para poder fazer as peças maiores, dir-se-ia que o grau de dificuldade e de acerto parecem semelhantes, quando obviamente não o são.


As suas obras estão cheias de significados ocultos, raramente expressos de forma explícita, como se pode constatar nos seus títulos, e não tenhamos dúvida que esses temas de inspiração informaram efectivamente as suas obras de densidades poéticas muito vivas e actuantes, razão pela qual o conjunto  da sua obra mostra uma grande diversidade de momentos de inspiração, ao longo dos dez anos que se encontram contidos neste conjunto tão diversificado. Porém, todas estas peças mantêm uma certa unidade, ao nível da qualidade plástica, que se equivale de uma obra para outra, mesmo quando a técnica utilizada passa do risco do experimentalismo à segurança dos métodos mais antigos na tapeçaria medieval, que ela põe em confronto lado a lado, em assemblages ousadas, com superfícies de uma expressividade primitiva, quase violenta, como acontece na sua Vela.

Assim, esta exposição, na sua grande diversidade de momentos de criação e de execução, não só atesta a invenção da autora, como constitui um relance involuntário sobre a história da tapeçaria, como se o tempo não existisse para ela, numa antologia de modos de expressão na arte e na criação da tecelagem, ao longo do tempo, e de civilização para civilização.  

                                                                                                                                                             Eduardo Nery

Pátria Mundo, texto de António Lagoa Henriques

Fios imprevisíveis tocam-nos enternecidamente

Mais uma vez a Drª Madalena Braz Teixeira nos surpreen-

de com esta exposição, num itinerário de imagens transfi-

guradas, tapeçaria, ” traje ” de uma invenção requintada, de

uma sensibilidade em que a História e o Mar se prendem

a Memórias da infância e uma Heráldica imprevista com

uma poética pessoalíssima. Tina dá-nos a ver um circuito

imagético em que a Geometria e a Cor se fundem num

universo inesperado e fascinante. Um beijo de ternura, de 

dádiva sem dúvida do

              Lagoa Henriques

                                   Bom-Sucesso, Julho 2000

Pátria Mundo, texto de Manuel da Costa Cabral

Projecto que atravessou os anos 90 e que vi crescer no meio de tanta adversidade.

Tecido em espaços que não chegavam para tanta obra e urdido em tempos que já não sabiam contar as adições que pouco a pouco se iam juntando.

Mas tal como a seta nunca atinge o alvo e contudo nele fatalmente se crava – falta sempre percorrer metade da distância que ainda falta – a Pátria Mundo chega até nós, de repente, vencendo o paradoxo da impossibilidade da sua realização.

Porque de uma obra de arte se trata.

Ainda bem que as asas e as mãos e os olhos e a teimosia e a simplicidade e a força e o saber fazer da Tina souberam ” tecer certo ao incerto ” , como ela um dia disse, e fez chegar até nós esta obra cheia de ” Temor e Motivação ” .

                                                             Manuel da Costa Cabral

Pátria Mundo, poema de António Barahona

Pátria Minha

                                XVII

DINAMENE a chilrear contra o crepúsculo

o cabelo dinamiza oh quão semelhante ao teu

é meu céu, nadador do mar de breu, músculo

no braço erguido com o livro que é meu enquanto 

eu for vivo em rosácea e em suspenso ilimitado


Dinamene raça de rapariga nos dias da raça do Poeta

arraçado de desgraça, Senhor Lusitano da Graça

na minha hagiografia herética onde o santo aventureiro

navega no poema à trinca com cheiro a trevas


Dinamene digo que me levas contigo: ressuscitada cuidas 

do Poeta enquanto for vivo o português e as caravelas

                               XVIII


NAVEGADOR solitário navego a todo o canto
por mares nunca dantes navegados no meu canto

<< único, irredutível e irrepetível >> canto

a todo o espanto e a todo o pano à bolina no meu canto

perene atado ao leme além do canto

um bando de gaivotas: contínua saudade que canto

de perfil contra o mar e a palidez das velas rotas.

                        António Barahona – Guimarães Editores, 1980

todos os textos integram o catálogo (esgotado) de 

                          PÁTRIA MUNDO 

António Barahona . Eduardo Nery . Lagoa Henriques . Madalena Braz Teixeira . Manuel da Costa Cabral

         Revisão de Fátima Barahona

          Museografia de Altina Martins

           ISBN 972 – 9261 – 55 -5 5