Crítica de José Luís Porfírio

VIAJOR

Crítica de José Luís Porfírio

Crítica de José Luís Porfírio a Viajor, exposição de Tapeçaria SNBA, galeria Pintor Fernando de Azevedo.

Obrigada JLP, pelo seu poema em prosa

*Muraille et Laine”, muralha e lã: lembrei-me deste título de um antigo livro (dos anos de 1940?) sobre tapeçaria francesa, depois de ter visto Viajor, um percurso no tempo (20 anos), no espaço e na tapeçaria de Altina Mar, em jornada com pretexto camoniano que é também, que é, sobretudo, uma viagem na sua tapeçaria, do muro, ou da parede, ou do painel, a caminho de um espaço mais vasto e mais fluído. No começo estamos ainda próximos deste vestir a pedra do título francês, a tapeçaria cobrindo e aquecendo o muro, transformando formal e simbolicamente o espaço. Depois vemos como a tapeçaria não se sente bem nas duas dimensões e se vai curvando. Mais adiante a trama e urdidura tradicionais recebem visitantes: contas, entrançado de esteiras, elementos naturais ossos, escamas, cascas, num nunca acabar de acrescentos que só não vemos como estranhos porque se integram perfeitamente na forma dessa tapeçaria, outra que por vezes lembra um estendal, como o que a Ana Vieira há muitos anos (1982) inventou para o Museu do Traje. A tapeçaria dança e, liberta-se desse suporte inicial que foi o muro, joga com o desenho da própria sombra que pode passar a fazer parte da obra. A Galeria Fernando Azevedo tem dois pisos, eles servem à perfeição para ilustrar esta mudança: um primeiro piso com um começo mais tradicional, mas com o desconforto de um corpo que se quer soltar e um piso inferior onde o corpo se liberta — no meio está a escada, onde a tapeçaria voga no espaço e se torce como se fosse feita de fumo. Esta é uma exposição que se visita como quem dança, como quem assiste na primeira linha à mutação contemporânea de uma técnica antiga, transformação que muda também o conceito, a nossa vivência e a nossa imagem da tapeçaria, numa explicação vivida que não necessita de palavras./ JLP

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